Cão Celeste #4

Herberto Hélder

A verdadeira língua morta

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BAIXA BIOGRAFIA, AO CIMO

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Herberto Helder, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.

                       Tenho de inventar a minha vida verdadeira.

 

HERBERTO HELDER, Photomaton & Vox

 

Se outro mérito não tivesse, Servidões obriga-nos a repensar com alguma minúcia o percurso literário mais recente de Herberto Helder. É certo que já houvera uma nítida inflexão em A Faca Não Corta o Fogo (Lisboa, Assírio & Alvim, 2008), livro surpreendente e arrebatador que se veria aumentado aquando da sua inclusão em Ofício Cantante (Lisboa, Assírio & Alvim, 2009). Mas talvez seja preciso recuar um pouco mais, para percebermos até que ponto é drástica, inovadora e talvez inevitável esta mudança do registo helderiano.

O que me parece agora evidente é que o autor chegara em Do Mundo (Lisboa, Assírio & Alvim, 1994) a uma espécie de limite intransponível; não havia futuro (há sempre muito pouco, convenhamos) para aquela música arrebatada e quase intemporal. A «alta voltagem do ouro» (DM, p.74) chegara ao seu ponto máximo de resplendor e densidade alquímica. Não era possível levar mais longe tão perfeita e compacta «massa de beleza» em que as «estrelas sísmicas» (DM, p. 20) adquiriam um brilho cegante e radioactivo. Talvez o autor tivesse disso consciência, ao assumir que estava a «Ir colher ao último alfabeto / a rosa extremamente escrita» (DM, p. 38) ou ao afirmar «Não posso escrever mais alto» (DM, p. 75). A ênfase, a exaltação, o dom haviam atingido esse ponto em que o ouro «transborda», de tão excessivamente depurado e perseguido. Lúcido e atento, Herberto Helder terá percebido, enfim, que esse «poema incólume / de música e / magnificação» (DM, p. 70) chegara ao seu grau máximo de beleza, afirmando-se sumptuosamente como um «canto inteiro» (DM, p. 68) mas tornando-se, por isso mesmo, incontinuável. O que poderia explicar, pelo menos em parte, o longo silêncio que se seguiu a Do Mundo.

A Faca Não Corta o Fogo constitui, na minha opinião, um desvio, – um retorno, melhor dizendo – à «áspera beleza» (AFNCOF, p. 200) e à «átona música mínima» (AFNCOF, p. 193) que já se deixavam ler em certas passagens de Os Passos em Volta, de Photomaton & Vox ou até do renegado Apresentação do Rosto. Tenhamos presente que Deus comparece em Do Mundo ainda com enorme pujança («Deus disse: um idioma que brilhe» – DM, p. 53) e que o primeiro poema de A Faca Não Corta o Fogo se resume a este único e esclarecedor verso: «até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza» (AFNCOF, p. 200). Esta poderia muito bem ser uma síntese, seguida de longa palinódia, da intensa exaltação patente em Do Mundo. Seja como for, torna-se inegável uma irrupção disfórica, surgindo doravante apequenados até os mais fortes elementos simbólicos ou alquímicos que nos habituáramos a associar a esta fremente poesia: «ouro moído», «pouca estrela» (AFNCOF, p. 158). Mesmo Deus, presença quase nuclear em livros anteriores, se parece reduzir aqui a uma ausência claramente anunciada: «o Deus que há-de vir não há-de vir nunca» (AFNCOF, p. 160). São muitos outros, porém, os indícios de descrença e desencanto que sublinham o descer baixo mas pleno de quem tão alto subira:

 

a mim, que não creio em Deus, pátria ou família

na vida eterna,

na foda estrita,

em prática técnica nenhuma,

na glória da língua,

não há apoio de inserção que me valha.

 

(Ofício Cantante, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p. 590)

 

 

Não sendo exacto dizer que este desencanto vem contaminar a própria escrita, pode-se, contudo, inferir que ele assola, de modo evidente, o conceito de escrita que nos é veiculado: «mas agora já nada me embebeda, / já não sinto nos dedos a pulsação da caneta» (OC, p. 168); «acabou-se-me a língua bêbeda» (AFNCOF, p. 176). Acresce, a este tom crepuscular, uma violência pouco habitual na poesia – mas omnipresente na prosa, caso faça sentido semelhante distinção – de Herberto Helder: «Língua-mãe, puta de língua, que fazer dela? / escorchá-la viva, a cabra!» (AFNCOF, p. 170). Contudo, dir-se-ia que língua (portuguesa, apesar de tudo) e autor partilham uma morte semelhante, uma exasperação tão comum quanto irrepetível: «estou a morrer a língua que não é curda nem inglesa / a morrê-la ao rés das unhas e da boca» (OC, p.583). Trata-se, porém, de uma perda vigorosa («é aqui que vivo: / perdendo artes, ciências gerais, os dons, a linguagem, / a ferro e fôlego» – AFNCOF, p. 164), de uma espécie de feroz demissão que vem acentuar a «baixa biografia» (AFNCOF, p. 143), a intempestiva passagem do demiurgo ao cidadão civil (digamos assim, até por me parecer ligeiramente insultuoso chamar a Herberto Helder «sujeito poético»), que não teme – em tempos tão politicamente correctos – verbalizar a sua atracção sexual por uma rapariga de catorze anos: «e tu, catorze, toda aberta e externa, arrebata-me nos meus setenta e sete» (OC., p. 549).

 

*

 

Mais do que inflexão ou desencanto, Servidões apresenta-se como algo de extremamente improvável, quando se tem a idade e o percurso literário de Herberto Helder. Trata-se, em rigor, de um recomeço: «[A poesia] É um início perene, nunca uma chegada seja ao que for.» (S, p. 12), é-nos dito logo no revelador texto introdutório. Apetece, pois, concluir que o «canto inteiro» foi brutalmente substituído por uma «fala cantante» (S, p. 43), mais rente à linguagem dita comum e ao mundo, num sentido histórico e já não exultantemente atemporal. Daqui, para eventual melancolia de críticos académicos que se «curricularam» dissecando a suposta obscuridade desta poesia, se infere também um desejo comunicante, uma ânsia de legibilidade que cauteriza sem piedade esse infeliz rótulo de «poeta obscuro»: «mas não quero complicar coisas tão simples da terra» (S, p. 35). Há neste livro um despojamento e uma crueza que por si próprios nos desarmam: «quero encontrar uma voz paupérrima» (S., p. 56). A simplicidade, quando assim obtida, é devastadora. As «mães», esse tema obsessivo da poesia de Herberto Helder, adquirem aqui uma concisão aterradora. «as manhãs começam logo com a morte das mães» (S, p. 35). Como estamos longe das «áureas / mães aracnídeas furando os ganchos nos tecidos suaves / rasgando nos tecidos/os orifícios / vermelhos» (DM, p. 25). Mas o desencanto é tal que se propaga à língua, ao verbo a partir do qual Herberto Helder soube forjar um inconfundível idioma: «Estou farto de tanto vazio à volta de nada, / porque não é língua onde se morra» (S, p. 56). E mesmo o balanço literário, em vários momentos feito ou insinuado, acaba por nada ter de salvífico, como cabalmente demonstra o seguinte poema:

 

hoje, que eu estava conforme ao dia fundo,

fui-me a reler alguns dos meus poemas,

e então caí abaixo de mim mesmo,

e era só o que faltava:

sáfara safra

– nem as mãos me serviam,

nem a dor escrita me serve para nada

 

(S, p. 64)

 

Ainda mais surpreendente, contudo, é ver este fundo desânimo alastrar geracionalmente, num múltiplo e implacável testamento (não por acaso retomado de Villon):

 

irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,

não peço piedade, apenas peço:

não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,

inclitamente vergonhosa,

que em testamento vos deixou esta montanha de merda

 

(S, p. 91)

 

Embora estejam presentes neste livro grande parte dos vocábulos centrais da obra de Herberto Helder (por exemplo «vara», «sal», «estrela», «laranja», «sangue», «camisa», «rosa», «água»), dir-se-ia que os envolve um «ouro íngreme» (S, p. 53) e que a própria alquimia passa a ser referida com uma cruel displicência:

 

vou dar que fazer aos pássaros jardineiros,

um botão de prata, uma folhinha de ouro,

a gota alquímica de mercúrio ao meio

 

(S, p. 53)

 

Mas é fortíssimo, uma vez mais, o erotismo que aflora nestas páginas: «e eu que sopro e envolvo teu corpo tremulamente intacto / com meu corpo de bode fedendo a testosterona e sangue» (S, p. 28). Ou ainda, e já mais perto da morte, o dístico seguinte: «cômo-te antes que morra / e eu sei quanto depressa morro» (S, p. 29). Abundam, aliás, com uma tristeza ou ironia inclementes, referências concretas à idade do poeta: «passei por todos os ministérios simples, e agora estou tão humano: morro / às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo» (S, p.77). Ou, retomando François Villon, estes versos: «irmãos humanos que depois de mim vivereis, / eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta, / fazei por acabar mais cedo os vossos trabalhos cegos» (S, p. 90). «Um tipo de oitentas está fodido» (S, p. 107), diz-nos secamente o autor, ousando assinar um cru e severo auto-requiem que merece citação integral:

 

cheirava mal, a morto, até me purificarem pelo fogo,

e alguém pegou nas cinzas e deitou-as na retrete e puxou o autoclismo,

requiescat in pace,

e eu não descanso em paz nas retretes eternas,

a água puxaram-na talvez para inspirar o epitáfio,

como quem diz; aqui vai mais um poeta antigo, já defunto, é certo, mas em vernáculo e tudo,

que Deus, ou o equívoco dos peixes, ou a ressaca,

o receba como ambrosia sutilíssima nas profundas dos esgotos,

merda perpétua,

e fique enfim liberto do peso e agrura do seu nome:

vita nuova para este rouxinol dos desvãos do mundo,

passarão a quem aos poucos foi falhando o sopro

até a noite desfazer o canto,

errático canto e errado no coração da garganta,

canto que o traspassava pela metade das músicas

– e ao toque no autoclismo ascendia a golfada de merda enquanto as turvas águas últimas

se misturavam com as águas primeiras

 

(S, pp. 104-105)

 

Há muito que sabemos, e graças também a Herberto Helder, que «tudo significa morte» (PV, p. 40). A grande diferença é que, aquém ou além da morte alquímica ou apenas «teórica», deparamos agora com um rosto olhado de frente pela morte:

 

os capítulos maiores da minha vida, suas músicas e palavras,

esqueci-os todos:

octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,

é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,

mas não nunca nem jamais agora:

agora sou olhado, e estremeço

do incrível natural de ser olhado assim por ela

 

(S, p. 109)

 

Áspero, rude, violento, Herberto Helder tornou-se talvez mais conforme (embora inconformado) ao tempo bárbaro e concreto que vivemos. Pois já nem se trata sequer do «tempo dos assassinos», mas antes do império obtuso dos «burrocratas indizíveis» (S, p. 85) aqui denunciados. E fica o recado, inequívoco: «acautela a tua dor que se não torne académica» (S, pp. 73  e 110). Como já vem sendo hábito, quase ninguém vai perceber nada deste inusitado renascimento lírico. Ou seja, e porque a crítica se tornou um círculo de pequenos mafiosos e diletantes, um livro como Servidões corre o risco de ser celebrado (e promovido) pelos piores motivos. Nada disso ficará, é claro, mas – se houver futuro – talvez a justiça do tempo permita que um poema como este venha a ser tão necessário aos nossos irmãos homens como a Clepsydra de Pessanha ou os sonetos de Camões:

 

pedras quadradas, árvores vermelhas, atmosfera,

estou aqui para quê porquê e como?

e mal pergunto sei que morro todo entre pés e cabeça,

e restam apenas estas linhas como sinal do medo:

pó, poeira, poalha

 

(S, p. 51)

 

ABREVIATURAS UTILIZADAS:

 

DM: Do Mundo, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994

AFNCOF: A Faca Não Corta o Fogo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2008

OC: Ofício Cantante, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009

PV: Photomaton & Vox – 4.ª edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006 (ed. or. 1979)

S: Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013

 

MANUEL DE FREITAS

 

 

POST SCRIPTUM

 

Há um outro aspecto, também ele singularíssimo, relacionado com o (des)aparecimento de Servidões; mas, tratando-se de um factor exógeno, preferi abordá-lo separadamente. Refiro-me ao facto, no mínimo insólito, de um livro de poesia cuja tiragem foi de 5000 exemplares ter esgotado em poucos dias. É claro que estes números não se traduzem fielmente em leituras ou leitores, mantendo-se inabalável e convincente a média estabelecida por um dos maiores poetas portugueses contemporâneos. Além da aura que se foi tecendo em torno de Herberto Helder (ao ponto triste de, para algumas pessoas, ter um livro do autor na estante ser o equivalente decorativo de possuir na sala de jantar uma serigrafia de Júlio Pomar ou um serviço Vista Alegre), convém não menosprezar a feroz especulação de alfarrabistas e coleccionadores que devoram cada novo livro de Herberto Helder como quem aposta na Bolsa ou adivinha, sem grande margem de erro, que este ouro vai envelhecer muito bem. A poesia, é de novo, o que menos importa.

Disso mesmo nos convence a rude estratégia de marketing a que deu voz (ou pelo menos eco) o suplemento «Atual» do semanário Expresso. Recorde-se que, em 1 de Junho de 2013, Servidões era apresentado como «uma obra que já esgotou nas livrarias». Mais importante do que contestar essa informação (e longe de querer ver nos jornais qualquer princípio ou desígnio de verdade), é notar que, no suplemento «Atual» de 15 de Junho de 2013, Servidões surge como o terceiro título mais vendido na semana de 27/5 a 2/6, na categoria de «Ficção». A outra categoria, liderada por um livro de Fernanda Serrano, é a da «Não Ficção». Ora o que isto demonstra cabalmente é o não-lugar da poesia. Os tops não estão preparados para fenómenos de vendas como Servidões, que fazem com que a poesia tenha de ser encaixada numa de duas categorias que, por motivos diferentes, lhe são hostis ou inadequadas. Independentemente dos apoios teóricos a que recorramos, é muito difícil determinar onde começa ou termina a ficção, mas torna-se muitíssimo claro, para um leitor atento, o que é ou não é poesia. O deslocamento de um livro como Servidões – ou a indesejabilidade da poesia, num mundo que tende a descategorizá-la impunemente – consiste em este não ter qualquer afinidade ética ou literária com produtos contemporâneos como Madrugada Suja, de Miguel Sousa Tavares, ou A Dieta dos 31 Dias, de Ágata Roquette. Chegámos, enfim, ao «tempo de indigência» profetizado por Hölderlin. E já não há bárbaros que nos salvem deste grotesco abismo civilizacional e cultural em que abruptamente resvalámos.

 

M.F.